(O grito)

Beijando o vazio

 

Eram 3:30 da manhã na cidade aonde tudo é capaz, aonde nada se encontra onde fico os dias sem me tomar em conta, que nada mais sou, deste todo sempre que fui...Foi naquela hora que vagueando pela noite fria e melancólica da cidade de muitos autores percebi que eu, não era mais eu e que a vida não era a mesma, mais era...Reticências por todas as partes, displicências por todos os meus supostos corações, que, para sempre e nunca, foi tão lúcido no instante que prometeu passar como um fio de navalha que cega um olho que chora...

Era escuro e claro ao mesmo tempo, o clima, era tão lúcido porem confuso como as incertezas, era normal se não fosse um momento tão especial, era simples se não fosse o caso de ser uma solidão banal, seria verdade se não fosse tão verdade o que meus pensamentos refletiam em meus olhos cortados e cansados do vento frio e do dia exaustivo...Muita referencia e nenhuma promessa, muita ausência e nenhuma solidão nesta cidade que só me exala escuridão...

Falei de céus que nunca vi, falei, e vi, e contei tantas bobagens a min mesmo, mas foi assim, assim o encontrei, assim foi o encontro mais perdido que tive em meus sonhos tão supostamente reais como esta cena! E eu aqui esperando este ônibus! E eu aqui esperando aquele instante, eu aqui esperando o momento exato de dormir, esperando a hora de reagir ao soco, a pancada que levei momento antes...

Foi assim: em um momento ao acaso-  apesar de duvidar do acaso, voltando de lugar algum para nenhum como todos os dias; eu o percebi vindo em minha direção como se fosse agora e sempre!

Sexy porem não tinha charme, louco, mas com uma lucidez nos olhos que espantava!Medo.Sempre o mesmo gosto Amores! Sempre o mesmo Tejo,o mesmo mar, o mesmo vinho, o mesmo escuro, a mesma droga e o mesmo cais que ele foi se aportar! Escuro, continuei caminhando no escuro, lutei para me distrair e pensar que tanta gente já falou daquela hora e daquele choque irreparável na sua boca!Andei! Corri! Peguei um ônibus! Mais ainda assim vi, sim eu ainda o vi naquele instante de para sempre ausência que por lúcido que seja a perturbadora face, louca, mas de olhar tão lúcido que não me deixava andar com os meus lúcidos momentos urbanos e contemporâneos! Tentei me refugiar em pequenos devaneios, em problemas mais rotineiros ,bobagem!Ao certo a hora era aquela, não havia jeito! Bobagem- pensei naquela hora com os meus três monumentos( Bobagem!) tudo era preto no meu lamento, tudo era fuga naquele decadente ônibus (Bobagem!) tudo chorava e transpirava amêndoas amargas que repetiam a historia (Bobagem!) tantas foram esperadas àquelas horas!(Mentira!) Luz que me ilumina falei pra ti fugir(Mentira!) raiva e desespero começaram a se despedir (Mentira!) encarei seus fatos, retratos e desatinos do meu amargo destino (Verdade...).

Foi só na insuportável lucidez, neste árido momento que consegui  realmente encarar os fatos e olhar pra ele, olhar para os seus olhos verdadeiros, mas com os seus trejeitos eloqüentes e envolventes... Olhei e vi, mas não consigo descrever, é feio como uma verdade e bonito como um poema mais por paradoxal que pareça foi para sempre em sua ausência que me afoguei! Ele me contou as suas verdades (porem não me falou de nenhuma que eu queria ouvir) foi realista em seus devaneios, me tirou do seio o pouco do lirismo que ainda tinha em seu falso teto de zinco que abrigava dentro do meu intestino, foi uma operação sem anestesia. Bisturi e algumas agulhadas, verdades sem lexotam e pontos de remorso para emendar a ulcera deixada!

Chorei.Escuro, e no escuro gritei mais não ouvi o grito, reclamei do não acontecido, alimentei meus livros, registrei meus prantos...Acalantos, invariáveis cantos do meu pobre olho que sangrava! Inconsolável mais sangrando todos os meus pensamentos foi assim como uma loucura ao vento! Mais sangrando alimentei meus medos, e sangrando aliviei meus erros e sangrando iluminei meus erros e foi enlouquecido de tanta lucidez que mesmo sangrando continuei andando... E ainda hoje ando, e ainda hoje rezo e ainda hoje lembro do seu Beijo seu gosto formigante de ausência plena, sua textura de loucura lenta e a sua áspera fuga pela noite escura e úmida, dentro daquele ônibus decadente guiado pela solidão.Beijando o vazio e sangrando a minha existência, naquele ônibus, naquela hora, nesta cidade que sangra todas as horas...

Reticência por todos os cantos, lucidez por todas as esquinas e aquele barulho de vida lá fora...

 Àquela hora de sempre, naquela hora de seus moradores viverem, continuei no ônibus a soluçar rotinas lotando o meu coração,e naquele ônibus lotado sangrando e desesperado continuei beijando o vazio,enquanto a vida lá fora começava a correr e o ônibus cada vez mais a encher de pessoas vazias...

Por todos os cantos desespero capitalista amanhecendo no meu dia escuro, na minha vida preenchida por tal beijo e rodeado de pessoas vazias percebi aquela hora que me havia chegado e que devia honrar para o resto de meus dias...

Beijando o vazio continuei no ônibus guiado pela solidão e lotado de pessoas vazias, lotado de tantas esperanças e nenhuma promessa só reticências...

 (Bobagem!)

 

David Cejkinski

 

14-11-2006

 

 



Escrito por david cejkinski às 20h30
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