
Anotações de um olhar urbano.
O amor é maior que os blocos de concretos da Praça Roosvelt.
Noite na cidade, carros e pedestres na dança frenética das pistas de pedra, pessoas, e vontades incontroláveis de chegar em algum lugar.
Era noite, era no centro e era uma vez um casal inusitado. Era na Roosevelt, era nas escadarias da praça mais feia da Paulicéia, era um retrato, era um monumento ao amor no meio de um lugar feio e tanta dor...
Como se fossem duas crianças que não entendem o que esta acontecendo, estavam sentados na praça insólita, parados, um em cada canto, cada um com os seus segredos de cidade, sórdidos ou não, estavam parados quando não mais que de repente sem se olhar: deram as mãos.
Ela: corpo-magro-cabelo-branco-pele-enrugada-melancolica-curvada-velha-e-abandonada.
Ele: gordo-negro-sujo-cara-de-poucos-amigos-maltrapilho-sedentario-meia-idade-e-esquecido.
Como alguém que cata uma lata jogada no chão deram as mãos, não se olharam só deram as mãos, só se tocaram, só estenderam a bandeira-branca, só avisaram um para o outro e sem palavras e delicadezas (que os urbanos ignoram) tocaram-se como forma de grito ao esquecimento, se entenderam sem ao menos precisar um olhar para o outro.
As mãos coladas, suadas, sujas e abandonadas: mãos-que-não-eram-tocadas-e-nem-acariciadas-a-um-bom-tempo...
Ficaram assim durante um tempo, finalmente se olharam, pausa.
Ela pensou:
“- ele é feio e cheira mal, tem uns dentes quebrados, tem a pele escura, eu nunca confiei em gente escura, é feio de mais, mais tem um olhar que dói, ele me olha e me dói nas entranhas, ele tem um olhar triste, ele é feio e negro, mas eu o entendo... a vida me convidou para o abismo, agora que to aqui no precipício quero ao menos sentir o calor de alguém que desaba comigo...”.
Ele pensou:
“Ela é veia e tem cheiro de coisa veia, mas num tem pobrema ela lembra a minha vó ela lembra coisa segura, ela tem a cara cansada, ela parece que tem um olhar vazio, duro, ela me faz isquecer do meu isquecimento, ela nun é o que eu queria mais agora que to no vazio eu quero sentir o carinho de um olhar siguro...”
Na esquerda da velha tinha um marmitex, ela pegou aquilo com um carinho eterno, abriu como quem abre um pote de jóia, com as mãos tremulas e cansadas pegou um pedaço de bife na mão, repartiu, sorriu e disse com sua voz aveludada:
“- cê quer um pedacinho fiú?”.
Ele olhou pro bife gorduroso, olhou pra ela, e pegou o bife como um pai que pega a sua criança pelo braço.Em menos de duas mordidas devorou o pedaço de carne-de-segunda.
A velha séria que só ria quando via um assalto, soltou uma bela gargalhada gostosa e demorada. Ele ficou meio sem jeito, não gostou e abaixou a cabeça. Ela viu e parou, longo e impetuoso silencio...
Ela botou as mãos em repouso nas suas magras pernas e disse secamente:
“Desculpa foi sem querer”.
Ele olhou pra ela, acenou com a cabeça, e apontou a marmita, ela estendeu a marmita, sorriu e disse:
“Pode comer tudo se quiser, perdi a fome...”
Ele avançou, em menos de 2 minutos a jóia tinha sido inteiramente aniquilada.
Ela virou o rosto, ele olhou para frente, e como quem não quer nada segurou a velha mão, ela deixou, por um instante seus olhos se encheram da água, ela virou para ele e declarou o seu amor sem dizer uma palavra. Ela percebeu o seu vazio, e ele percebeu o seu abismo.
Os dois perceberam as suas necessidades, os dois entenderam os seus abandonos, os dois se acolheram, se juntaram se fortaleceram, amaram com uma piedade do tamanho dos enormes blocos de concreto da Praça Roosevelt.
Compreenderam que não eram mais sozinhos ao menos naquele dia não podiam mais ser sozinhos, ele a abraçou no momento que as pupilas secas e desiludidas da velha deixaram escapar uma lagrima de esquecimento...
Agora já não importava mais o abismo da velha e o vazio dele, agora eram solitários e caiam em um abismo acompanhados de um vazio imenso, porém grudados e cúmplices: um da dor do outro.
David Cejkinski
18-04-2007
Escrito por david cejkinski às 23h23
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