Eu precisava de algo desesperador! Eu precisava!Entrei no banheiro, vi no espelho uma imagem que me descontrolou. Liguei o chuveiro, e deixei o vapor morno contaminar o meu corpo frio, branco e magro, bem delicado. Molhei o rosto e senti por um instante uma dor horrível que começa nos olhos e termina assim na metade da nuca, uma dor seca, que me fazia ficar tonta-muito-tonta.Descontrolada deixei a água molhar lentamente os meus poros e quando me dei por conta ainda estava de meia calça, me sentei na beira do Box de maneira que as costas ficassem encostadas na parede de azulejos vermelhos, comprados com certeza nos anos 70, coisa típica de banheiro dos anos 70 sabe como é? O importante é que fiquei lá por um tempo que não sei bem quanto foi, mas quando fui me levantar percebi que já estava sem as meias-calças elas estavam encharcadas em cima da pia, meio jogadas. Assustada desliguei o chuveiro.
Limpei o vapor do espelho, e me olhei.
Pausa.
Nesse momento me lembrei de Camille Claudel e o seu romance com Rodin, os amores platônicos são feitos para as ausências- pensei enquanto não desgrudava o meu olhar da minha imagem refletida no espelho. Me cobri delicadamente com a tolha usada por você na noite passada. Quando me lembrei peguei aquela merda e joguei pela janela. Usei uma azul, com bordados delicados feitos pela madrinha. Sequei-me como quem passa ouro puro sobre o corpo.
Vesti a minha melhor roupa.
Mas era cedo ainda, era cedo e os bares ainda não estavam lotados de gatos-sem-dono. Peguei um livro pra ler, um livro esquecido que estava em cima da minha mesa, observando um pouco mais lembrei que era resquício de uma noite de lançamento de uma amiga minha muito doida! Comprei para ajudar, sei lá... “Um drink no carrossel” mais era um romance, eu estava farta de romances por aqueles dias, me deu vontade de ligar pra ela e gritar: “Eu gosto de literatura que machuca menina! Gosto de rastros de sangue, e delicadeza poética, não mais um romance, me entende? Não VOCÊ NÃO ENTENEDE” E desligar anônima e chorosa feliz por ter feito alguém sentir pena de min por aquela noite...
Mais não, aquilo não era momento para estampar no jornal que eu tava carente e precisava de Homem, não mesmo.
Liguei o radio e deixei um jazz me acompanhando até a meia-noite, joguei um perfume doce no corpo e me mandei.
Sentei na mesma mesa que agente senta as quartas-feiras, pedi um drink que não me recordo qual foi.
Eu já tava um pouco “alegre” quando você se aproximou e disse como quem pede um simples conhaque:
“Casa comigo?”
E eu delicadamente traguei, soltei a fumaça e borrei a sua orelha com a o batom vermelho que cobria os meus lábios e disse sem pensar duas vezes:
Sim.
David Cejkinski
18-05-2007
Escrito por david cejkinski às 18h21
[]
[envie esta mensagem]
|