Existem textos como esse que na verdade ja estão prontos a muito tempo, mas só agora por um verdadeiro lapso eu consegui botar no papel.

 

Anotações de um olhar Urbano.

 

Meu coração outono.

 

Como se fosse em um filme de Bergman, em uma sonata melancólica e reconfortante de todos os dias, das horas vividas, dos lugares que já passei, pessoas que eu conheci, que gostei, que desprezei.

Ando, ando, ando com esses olhos, essa pele ruim, esse cabelo ao lado e uma vontade inigualável de falar, se entregar. Completamente.

De dias, minúcias e palavras, fases recortadas, inconstantes relapsos de vida: fotografias-caidas-como-folhas-caidas-em-um-outono-qualquer.

De menino a mentira, de menino a canção, poetizando folias, realizando a canção. De menino a fome, a brincadeira, o grito, a tolerância e o hino, de menino. De menino eu trouxe de lá de trás do morro a mentira, a imaginação o começo da canção.De menino a escola, das tantas, dos tratos, dos ratos, de tantos... Dos traumas das aulas das rezas das presas das mesas das lousas. Dos rostos, dos lanches, das brigas, das pernas, das figurinhas, da bala-chiclete-supresa-sorvete-sobremesa-tuti-futi-e-amendoim.

Sim. De menino a maturidade da grandeza, inocência, foi menino que me fiz artista, triste malabarista de ilusões.

De cada dia uma poesia: a infância adoeceu, passou a ser uma saliência que me incomodou e aborreceu. Aborrecente virei gente.Dancei, morei, ri, lutei, descobri, falei, chorei, adoeci. Fiquei doente. Doente de uma cor amarelada criada na minha mente. Fiquei assim meio doente.

Meio cansado, meio pelado, meio atrapalhado.

Melhorei quando o outono chegou e levou com uma canção de Mozart a tristeza embora, a loucura jogada fora.

E que me entreguei: e fui, lutei, gritei, interpretei, morri, ressuscitei, trabalhei, viajei, me descobri.

A que descobri a poesia em um outono qualquer, a que descobri a entrega em um braço qualquer, a que descobri o prazer em um endereço qualquer, a que descobri a minha arte em um parque qualquer.

De traços, rodopiando a canção, depois de virar a esquina, cruzar o farol das três meninas, depois de ficar doente e dobrando a direita na esquina da arte ao lado da loucura, andando um ou dois quilômetros, depois de todo o esforço, depois do fim dessa canção você encontra o meu Outono Coração.

Com letras ofuscantes, letreiro iluminado, anuncio arrumado dos filmes americanos, lá está com o seu significado: coração de gente, coração que implora, que sente que tenta que entrega que alimenta que enamora que sustenta que arrebenta que ilumina que fascina que engana que atua que retrata que aumenta que inventa que apaixona que invade que tem maldade que tem bondade que tem loucura que tem açúcar que tem doçura e amargura que tem desconfiança que dança que poetiza que harmoniza que desarruma que chora que ri que tanto faz desde que um sentimento passe por aqui.

A que o coração transborda, que derrama, por onde passa: drama.A que em dias quentes gosta de comédia, em dias de céu azul romance, e em dias e em horas um coração a qualquer hora, qualquer dia uma historia.

Do alto dos prédios, dos ventos, dos urbanos, da poesia, dos livros, dos romances, em cima dos sentimentos ele desaba como uma folha seca: o meu outono coração. Quando é dia de poesia, ou dia de prosa, ou de harmonia o menino sempre traz correndo levando pela mão este outono, esta poesia: meu coração.

 

David Cejkinski 06-06-2007

 

 



Escrito por david cejkinski às 22h44
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Refluxo.

 

Há de apagar o lírio dos teus risos...

Há de sonhar clareira entre seus ossos...

Há de voltar aos hinos dos teus gritos...

Há de envolver vitória em seus abraços...

Há de morrer no fim do teu martírio...

Há de tentar loucura em seu diário...

Há de torcer nos teus passos feridos.

Há de pregar metal sobre seus ossos.

Há de lutar contra o sexto sentido.

Há de voltar para o teu lugar.

Há de morrer no colo do menino.

Há de chorar as horas em seu passado

Há de conter seus dramas não vividos.

Há de roer amor no teu cinismo.

Há de assassinar a ânsia reprimida

 

Fará vida, guerra, e paz...

Dos teus cantos tristes e voraz.

Aonde a vida faz sentido.

Aonde nada tem lugar.

Nascerá flor reprimida.

Encantará luz no teu olhar.

Para sempre navegando.

Na marcha fúnebre dos teus dias.

Aonde jaz, dor reprimida.

Aonde a vida tanto faz...

 

David Cejkinski 04/06/07

 



Escrito por david cejkinski às 22h36
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