Havana Club.

 

Ele prometeu a si mesmo que naquela noite ia se entregar a algum corpo decidiu que precisava sentir o gosto de alguém sobre sua boca- “Mais de duas semanas sem dar uma, eu não agüento!” Desceu a Augusta como sempre fazia, um ritual solene onde as luzes, putas, carros e caras contemplavam o seu desespero carnal em mais um sábado a noite sozinho na grande cidade.

A noite estava nublada e a rua muito movimentada de outros coroas solitários como ele, como se era de se esperar em uma madrugada de sábado para domingo naquela rua.

Não sabia em qual casa ia entrar, gostava do Danúbio Azul apesar de ter uma antipatia tremenda pelo gerente que era veado e vivia cantando ele.

Acendeu um cigarro, pensou na vida, andou, andou passou em frente da casa que havia freqüentado muito na sua juventude, mas pela decadência do local abandonará - Afinal o lugar ao menos precisa ter aparecia limpa, né?- pensava sobre o sereno daquela noite fria de julho.

Assim que passou a porta do Havana decidiu quase que involuntariamente dar uns passos para trás e entrar, não podia negar essa curiosidade a si mesmo, parecia ontem que ele foi com o seu pai à boate aonde deixou o seu cabaço para provar ao pai quer era Macho sim, não uma marica.

O pai suspeitava de seus costumes esquisitos de ler muito, ver filme e freqüentar esses bares lotados de intelectuais, pessoas estranhas e homens afeminados.

Na porta não estava mais o gordo mal encarado que costumava ficar na época que freqüentou o local, no seu lugar estava uma mulher baixa de cabelo curto e camisa social - Com certeza é bolacha!-pensou no ato que ela entregava a sua comanda para entrar no bar.

O cheiro de porra e coisa mofada invadiu as suas narinas, e pensar que aquele era um lugar de alto luxo há vinte anos atrás...

A decoração continuava anos 70: um carpete na cor azul com detalhes em prata revestia todo o salão, agora ele estava encardido e o azul se transformou em preto, o bar continuava no mesmo local e o couro brilhante que era um luxo: estava rasgado com algumas partes mal remendadas no entorno do velho balcão, algumas poltronas vermelhas no canto dava a impressão de realmente estar de volta aos anos 70.

A pista de dança continuava com o grande globo no centro, mas agora ele balançava o que deu a ele um medo tremendo de vê-lo caindo sobre a cabeça do rapaz com aparência de Paraíba que dançava com uma morena gorda vestida com um vestido vermelho que para sua supressa usava um All Star azul e de cano longo.

O grande palco que ostentava uma banda aos sábados agora estava sem a grande cortina vermelha de veludo, no centro do palanque remendado havia um ferro onde com certeza as garotas dançavam em troca de alguns trocados.

A freqüência na maioria era de nordestinos, negros e pessoas bem esquisitas como um velho que não saia do bar e ficava toda hora alisando o pau e olhando para bartender que usava uma camisa do Corinthians e não via o velho se masturbar do outro lado.

Sentou em uma das poltronas vermelhas e ficou a contemplar o lugar que lhe trazia umas lembranças nada agradáveis.

Ficou incomodado com algumas garotas que não paravam de encarar ele com uma certa curiosidade.

No momento que ele se interessou por uma morena sentiu alguém alisar os seus ombros, virou para trás:

- Essa é a Gilda, ela vai te ensinar a como ser homem moleque!

E saiu correndo enquanto o seu velho e pálido pai gritava:

- Volta aqui sua Marica, você vai se vê comigo em casa seu frouxo!

Na rua ninguém entendia o porque daquele coroa boa pinta correr tão assustado em direção a Paulista.

 

 

David Cejkinski

 

 



Escrito por david cejkinski às 16h58
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(imagem da montagem do Teatro Ipanema sobre a direção de Ivan Albuquerque com Rubens Correa e José Wilker)

O Arquiteto e o Imperador da Assíria de Fernando Arrabal.

 

Estarrecedor e verdadeiro são as qualidades obvias deste texto que me vem perturbando a mente desde a primeira vez que eu li.

“O Arquiteto e o Imperador da Assíria” de Fernando Arrabal, mostra de forma irreverente um resumo dos relacionamentos humanos, das nossas mascaras, medos, conflitos, espasmos de vida jogados em um texto que resume de forma poética o homem e seu encontro com os conflitos mais essências nesta passagem chamada: vida.

A política e a dominação rompem de forma lúcida e lírica o relacionamento de um sobrevivente de acidente aéreo (Imperador da Assíria) e o seu selvagem-de-estimação que habita aquela ilha (o Arquiteto).

Aparentemente de um tom farsesco cujo norteia muitas peças do Teatro do Absurdo, o “Arquiteto e o Imperador...” expõem inicialmente um tom de deboche a vida moderna e como ela corrompe o que há de natural no homem; trazendo como beneficio ao ser primitivo: as questões existências, a solidão, o amor e a eterna insatisfação com o presente.

Como em muitas peças do Teatro do Absurdo o que esta em cena é uma metáfora da essência humana e de como o homem encara esta espera. Neste jogo as personagens se deparam com a falta de preenchimento de suas vidas assim inventado “brincadeiras” para que ela fique repleta de algum sentindo que nem mesmo as personagens sabem o qual é. Brincam de marido e mulher, dominador e escravo, pecador e santo, até mesmo de guerra e tortura eles se entregam de forma irônica, leve e engraçada.As sucessões de cena em que um domina o outro para não se perderem na solidão sem razão da ilha (o cenário da peça): as suas vidas, mostra de forma cômica e espantadora o homem diante de sua banalidade existencial.

Na maioria de seus textos Arrabal expõe os adultos como crianças maldosas, que em algum ponto de suas vidas a inocência e a piedade morrem como forma de passagem para a vida adulta, aonde o destino é cruel e sem saída.

Diante deste pânico o teatro de Arrabal liberta o inconsciente do homem adulto, permitindo colocar em cena os seus dramas, anseios, comédias, esperanças e fragmentos de um homem contemporâneo onde os seus desejos são reprimidos em favor de uma sociedade burocratizada.

Problemas evidenciados na vida do autor como seu difícil relacionamento com a família e em especial com a sua mãe, expõem de forma contestadora algumas vertentes da psicologia Freudiana.

Um teatro que diverte, emociona, contesta e inova a estética teatral é isso que oferece a peça com as personagens desencantadas de uma vida real e sem saída.

 

David Cejkinski

 



Escrito por david cejkinski às 23h35
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