Anotações de um olhar urbano.

 

Casual.

 

Atrasada Ana desfila histérica pela Paulista, já até ouvia a bronca do chefe que não vai com a cara dela desde o primeiro dia de trabalho. Mesmo funcionaria publica Ana não gostava de vacilar afinal conseguiu o que queria a muito, trabalhar na Paulista em um andar bem alto e cafezinho à vontade.Isso era muito mais do que podia imaginar sentada vendo Faustão em sua casa na Brasilândia. Nem pensar ser transferida para uma repartição qualquer em Santana, Saúde, Tatuapé ou um desses bairros sem charme nenhum.

Enquanto passava em frente ao MASP Ana pensava que devia ter colocado o guarda-chuva na bolsa afinal o dia tava com cara de chuva, de repente esbarrou em Arthur.

-Oi!

(Não podia te encontrar assim desarmada, sem ensaio, nesse dia cinza com pessoas quaisquer esbarrando em min, seu filho da puta não fez a barba- sabia que ia me encontrar, né?- calculista, neurótico, sabia me deixar sem chão, de quatro me arrastando todinha na sua mão. Eu já te esqueci entendeu? Comida requintada nem pensar, não é Ana, hein?- será que ele já ta com outra?)

- Oi...

(Nossa quanto tempo, como era o nome dela mesmo? Acho que: Luiza, isso Luiza. É ela que gosta de ser mandada? Não essa é a Ana. A Luiza gosta a cavalo, safada...)...

-Tudo bem?

(Ta me olhando assim por que hein? Acha que vai me levar pro Motel, acha que sou a sua cadela que é só mandar e eu já to lá de rabinho em pé? Homem não presta mesmo! Deus! Eu mudei de telefone será que é por isso que ele não me liga mais, que cabeça a minha... Ou será que eu dou? Não, vou me fazer de difícil, minha mãe diz que da certo.).

- Tudo, tudo certo.

(Será que eu peço o telefone dela? Acho que perdi. Não, não pode se mostrar fácil, assim ela fica mais tarada, pelo menos é o que diz o Pedro).

Longo silencio. Ele olha pra ela e ensaia dizer alguma, ela diz:

- Então, sabe o que é? Eu to meio atrasada, preciso ir, mesmo...

( Panaca! Não vai fazer nada? Pedir meu telefone, falar do meu corte novo, nada? Olha tesudo eu to sem tempo, pedi logo meu telefone e depois agente termina essa historia...)...

- Ah ta, então ta...

(Pelo jeito acho que ela ta de namorado, será que eu pergunto? Não ia dar bandeira de mais...)...

- Então ta?

(Como assim meu, como assim cara? Você não vai pedir meu telefone? Que saco! Será que eu vou precisar dar a idéia)?

- Ta...

(Já sei vou pedir o telefone dela se um homem atender já tenho a resposta.).

-Ok, então eu vou indo, bom te vê viu!

(Veado)

- È que...

- O que?

- Então...

(Não. Ta nervosa de mais, já sei. Deve estar casada, certeza.).

- Hein?

(Vai logo delicia, pede logo... Paciência, meu deus, paciência...)...

- Nada não, vai lá, você está atrasada, não quero atrapalhar...

- Da pra sair da frente então?

(Bem que a Beatriz disse que ele era veado, só pode, lerdo desse jeito)!

- Sim, lógico, desculpa...

E saiu depressa batendo os saltos, irritada com a vida.

 

David Cejkinski



Escrito por david cejkinski às 19h29
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Janela de Dali.

 

Janela de Dali

Perspectiva torta,

ao desespero.

Cor sangrenta do meu enterro

 

Do que reclama artista?

Ao meu amuado sonho realista?

Parasita ilícito de tanto girar.

 

Na estante o lápis vem me apontar o hermético.

Catatonico sonho patético.

Contraponto ilícito dos meus lábios líricos.

 

Destino azedo ao que me mete medo.

Quando me fala ao pranto, tanto que a estante pára.

E a parede nem rapara da minha tanta ausência.

Que quando reclamo de minha demência a noite reluz lá fora.

 

Altar dos tantos rodeios,

minha cama, meus retalhos...

De tanto que eu preparo ao lustre que me devora.

Para sempre um grande amor latente,

Guardo o infeliz retrato no meu armário.

Jogo loucuras do lado de fora.

 

Janela de Dali,

O que podes descrever agora?

Das tardes que tanto ri?

Dos homens que de ti devora.

De fora as nuvens de fogo.

Cá dentro o meu tédio amola.

Mas quente ao meu prato sedento.

A cor que me pinta agora.

 

Quadros são fotografias pintadas no meu coração.

Não diga não aos passos rastros de tantas pessoas.

A que te entregues aos cantos na cidade agora.

O teu quarto que chora, os teus malditos prantos.

 

Janela que me destrói por dentro, abismo do lado de fora.

 

David Cejkinski

 



Escrito por david cejkinski às 11h13
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