
A partida de Giertha.
Vivia de poeira riscada sobre o corpo,
contorcia a voz que ninava o seu sonho.
Jantava, almoçava e amanhecia sempre em seu sagrado trono.
Sorria para as manhãs azuis,
Para as cinzas dava bom dia.
(e que seja sempre um eterno dia)
Fraca desenha a infância,
Falava de quando praticava dança.
Na escola o bordado, aritmética e comportamento.
Era fim de novembro,
Era a partida de Giertha.
Fronteira da Tchecoslováquia,
De tanta paz os dias passados eram riscados,
O destino rasgava seu pano, denunciava partidas.
Tinha a pele branca, delicada.
Cabelos ruivos caídos sobre os olhos de cetim.
Não agredia ninguém, embalava o anis que rodopiava seus gritos.
Ela tinha treze, Giertha quatro.
Carregava a boneca aos seus cuidados.
No trem: pessoas frias, dia claro, amontoados sobre alguns dias percorreram linhas de um contorno duvidoso.
Labaredas queimavam seus olhos, o desespero calçou a luva.
Mar de abismos ninava o seu juízo.
Chegaram no contorno final.
Sozinha com Giertha deitada no estrado, mesmo como um rato não deixava de trazer comida para sua filha.
Era de noite e de dia o cuidado de uma mãe zelosa.
De sua mãe tinha uma curiosidade duvidosa de vida.
De cinzas a sua memória cansada é povoada.
Seus olhos de cetim estão pequenos e fracos.
Fez família maior do que tinha em Terezin.
No museu de guerra repousa Giertha,
deitada sobre cartas escritas por sua mãe.
Que saudosa da infância que nunca viu, lhe manda cartas sobre o presente.
Quando chora o tempo enterrado ela escreve poesia ao passado.
David Cejkinski 26/09/2007
No Yad Vashem ( Museu da segunda guerra em Israel) tem uma parte dedicada aos objetos pessoais dos presos nos campos de concentração.
Entre eles está Giertha uma boneca de pano que testemunhou a infancia de sua dona e sua familia ser destruida pelos nazistas.
Sua dona ainda lhe manda cartas contando sobre o seu presente que ficam repousadas logo atrás da boneca.
Ela manda cartas à sua infancia.
obs: a foto é ilustrativa.
Escrito por david cejkinski às 23h24
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