
Casa de Massagem.
È verdade que daquelas noites não podia reclamar muito afinal Ana estava felicíssima com as gorjetas ganhadas no bar do velho prostíbulo escondido nas imprevisíveis vielas de Montmartre em Paris ─ e era em Euro! Dizia sempre sorridente em frente ao espelho.
Vez em quando se também agradasse de mais um coroa boa pinta por que não usufruir de uns minutos de prazer e uns belos trocados a mais?
Ana deleitava-se em Paris, onde viu com os seus próprios olhos realmente ser a terra do amor! Ou industria como preferir.
Era uma casa de troca de casais, outras putarias e afins, mas rolava alguns serviços de massagista também se é que você me entende.
Ouvia historias de mais, no fundo gostava do que via e ouvia se sentia moderna, desejada e flertada a cada momento.
Historias? Existiam varias, afinal era uma casa liberal onde as únicas regras não permitiam o uso de drogas e aconselhavam o uso do preservativo, mas não exigiam, apenas aconselhavam.
Fina e de um olhar aveludado, dona de uma moda bem esquisita a linda Fantine vivia tentando Ana que por sua vez sempre repetia ─ meu negocio não é aranha, mulher!─ dizia com o seu francês mais do que capenga e caipira.
Um dia se rendeu aos encantos da menina-de-saias-rosas e sombra azulada, estava em Paris e tinha de experimentar todos os rótulos e vinhos!
Calçando apenas grandes sapatos de verniz vermelho Fantine foi paciente e lhe ensinou todos os segredos e mentiras da arte do cola velcro. Nada detinha a curiosidade de Ana que tinha insights terríveis e clichezentos quando gozava, ouvia La Vie em Rose e tudo. Certo dia teve um sonho erótico com a própria Piaf e ficou horrorizada, desde então evitou os encontros com Fantine no Bordel e rezava tardes e noites inteiras.
Onde quer que ela fosse nessa época podia-se ver Ana sussurrando preces inteiras e secretamente mentalizava sempre: eu não sou bolacha, eu não sou bolacha, eu não sou bolacha... E isso se repetiu por dias e dias.
Para a sua felicidade Fantine sumiu do bordel e mais do que nunca vários coroas davam em cima dela descaradamente (acho que d’us ouviu as suas preces homoeróticas).
De todos os casais que freqüentavam o Spa (era assim que ela gostava também de se referir ao centro de massagem) gostava muito de Norma e Simon, afinal passava horas e horas conversando ou tentando conversar vezes com um vezes com outro, tudo dependia de quem estivesse sem fazer nenhuma atividade sexual naquele momento ─ de tanto o dono chamar aquilo de centro de saúde sexual ela também acabou incorporando essa expressão ao seu vocabulário; quando perguntavam onde ela trabalhava falava de imediato: eu trabalho em um centro de saúde sexual. E as pessoas achavam lindo, já que pensavam que ela era psicóloga ou medica com uma dessas especializações modernas que ninguém entende direito pra que serve.
Norma é professora de filosofia e acha a fidelidade uma besteira, uma traição à natureza humana, ela passa horas e horas falando de varias teorias que Ana não entende direito, mas no fundo sabe que é apenas uma forma dela justificar a sua libertinagem.
Simon por sua vez não via nada de filosófico na arte do adultério gostava mesmo é de trepar e dava risadas gostosas na cara de Norma que perdoava tudo por saber que seu marido não tinha “esclarecimento” o suficiente para entender o que existe por trás do gozo.
Os dois “amigos” Luc e Pierre eram muito descolados e viviam juntos há muito tempo, Pierre era escritor e gostava de passar tardes e tardes observando o entra e sai da escura e imensa “sala terapêutica”, dizia que era material de inspiração artística, mas vez ou outra se confundia em sua própria arte e se rendia durante alguns momentos junto de seu colega ao sexo sem compromisso que segundo ele é o principal erro trágico do homem pós-moderno. Luc era loiro, baixinho e magro tinha os olhos verdes e um apetite sexual peculiar, talvez ele seja a pessoa mais “livre” que Ana conheceu no centro de massagem.O que aparecia ele topava na hora, mas sempre com preservativos e sob o olhar artístico de seu companheiro Pierre. Dia desses Ana ficou sabendo que Pierre lançou um livro de contos eróticos que estava sendo estudado em universidades do mundo inteiro ─ pois era um fiel retrato da vida sexual do homem contemporâneo ─ mostrava o artigo que por a caso leu no Le Monde ficando orgulhosíssima por ter entendido tudo o que estava escrito, isso era o resultado das horas intermináveis que estudava francês pela Internet.
Escrito por david cejkinski às 22h08
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Fez grande amizade com o senhor Tom, é um velho sacana que vai ao bordel para conversar com os freqüentadores e falar de como era terrível o tempo em que era jovem e por isso agora que as coisas estão mais “ligth”, ele tinha que aproveitar a juventude passada e a morte da velha ─ o problema é que o corpo do senhor Tom não entendia direito essa nostalgia e não reagia ao desempenho esperado pelo próprio, então ele ficava mais no bar conversando com Ana do que realmente praticando o ato. Com Ana nunca nem tentou nada gostava dela como companhia, um dia que Ana estava de folga foram juntos ao cinema já que agora ela conseguia entender as legendas ou falas no caso de ser um filme francês. Neste dia ele lhe confessou que gostava dela, pois ela lembrava de mais sua filha quando nova, já que sua filha não dava atenção a ele Ana era uma forma de recuperar o dialogo que nunca teve com ela. Como Ana era sozinha na velha cidade luz era bom ter um “parente de aluguel” mesmo que este a usasse como protótipo de uma filha que nunca teve.
E pessoas estranhas e bizarras desfilavam todos os dias pelo bordel, neuróticos é o que não faltavam. Casais em fase de separação, pessoas depressivas, acima do peso, com gostos estranhos como uma menina que gostava de mijar na cara de seu namorado, gays enrustidos, gays liberais e todos os tipos de animais e comportamentos da fauna e flora Parisiense.
Certo dia, melancólica Ana estava passeando pelo centro de Paris, um sujeito engravatado e com gel no cabelo abordou ela de supetão e entregou um pequeno jornal que exibia como nome: Tribuna da fé. De inicio Ana ignorou mas olhando atentamente viu a foto de um pastor que não lhe era estranho, olhando direito Ana se assusto ─ Meu deus, mas se não é o senhor Simon, marido da dona Norma!─ e ficou rindo a toa durante o caminho até as margens do Senna. De curiosidade Ana resolveu visitar o culto daquela noite, não podia deixar de tirar um barato da cara de Simon, mas mal entrou na igreja se deparou com ele em cima de um palco todo branco e rodeado de flores silvestres apontou para Ana e disse com uma convicção ortodoxa:
─ Irmã, venha! Você aqui será bem acolhida, irmã eu sei que tua vida não tem sentido, sei que anda por caminhos escuros, irmã se renda ao sangue de Jesus! Ele te enviou aqui até a min para cumprir um trabalho em sua vida! Irmã não se assuste, a escolha está na sua mão, à felicidade é um caminho com encruzilhadas é só ter Jesus na mente que você encontrará a estrada certa!
Ana que ficou paralisada com o foco de luz em cima dela e as centenas de olhos curiosos lhe secando não esboçou reação alguma. Uma negra bonita com uma faixa colorida na cabeça e uma saia longa abaixo dos joelhos a levou pela mão até ao palco onde depois de uma corrente de libertação Ana se tornou uma outra mulher.
Seja você também um vitorioso! Se renda ao tesão de D’us.
David Cejkinski
Escrito por david cejkinski às 22h06
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Geladeira Atômica.
Plena.
Me fazia bem aquelas tardes mansas, o trabalho nítido como uma pagina em branco.
─Sobe.
─Desce.
Apresentações e mínimas palavras ao publico pretensiosamente gelado que de assunto cortado se refere ao tempo louco da cidade pirada.
Qualquer outro suspiro era carnaval no meu dia.
No elevador descobri como somos redundantes, dias depois de pegar o emprego, assinei a Folha para cumprir a minha função de desassuntar os comentários que hoje de tanto ouvi-los, me irritam profundamente como os gerúndios infinitos de um telemarketing maldito.
E de quando em quando, foi pratico os nossos encontros, quase sublimes de forma lírica e estonteante, eu arrisco: aqueles teus olhos verdes-mares me concluíam com tanta clareza em poucas palavras: décimo andar, por favor!
Foi o que bastou, me apaixonei de cara, falam que me apaixono fácil...
E fui às nuvens com você pensando em sua barba lisa, suas mãos expostas nas pastas sujas de poluição do ônibus ─ provavelmente.
Eu esperava sempre os minutos-instantes-malditos que não passavam por mim dentro daquela geladeira eletrônica, mistura de nave espacial com sedentarismo.
Você não sabia mais estava apaixonado por mim.
Conseguia ler nos teus olhos, eu sabia que quando você se deparasse comigo ia largar aquela pasta preta poluída e ia me convidar para um café no seu departamento (suponho claro que você trabalha aqui já que te vejo para a minha sorte todos os dias). Sim, isso pode ser loucura, clichê ou tesão, mas eram vistosos os minutos dentro da geladeira atômica esperando o momento de te ver com a barba loira mau feita e os olhos verdes de-se-perder-de-conta...
O gordo escroto do sétimo andar ficou bem na sua frente um dia desses quase encostado em ti, você descia sério e preocupado segurando sempre a pasta preta suja de poluição, como se não fosse bastante o filho da mãe ficava pegando no pau e me olhando─ esses velhos acham que agente não percebe nada, mas graças à invenção do alumínio escovado as geladeiras atômicas ficaram bem dinâmicas, assim você pode reparar ou secar alguém pelo alumínio, tenho que confessar que sem isso os meus dias iam ser bem mais repetitivos. No elevador a gente perde a noção da vida e das horas.
Escrito por david cejkinski às 13h19
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Um mundo à parte te rodeia, os minutos são contados pela rotina do prédio, os freqüentadores é que te dão o horário aproximado da vida, exemplo: sempre as três e dez da tarde uma senhora simpática sempre sobe comigo até o décimo sétimo andar quase sempre com um sorriso no rosto─ acho que de vergonha ou disfarce dos peidos que ela solta, fico até as cinco horas com aquele cheiro de feijão podre na nave, vez em quando entram no elevador sentem o cheiro e me olham feio como se eu fosse a culpada. Ossos do orifício sabe como é.
No elevador o trabalho é de espera e quando você demora tudo fica extenso, um outro dia que você não veio fiquei decepcionadíssima nem a novela me consolou.
Inventei um passa tempo por estas tardes, fiquei observando as pessoas e relacionando os tipos com animais, dava gargalhadas histéricas sozinha ─ ficava pensando no que o Manuel da portaria pensava de min me olhando pela câmera.
Era irresistível, não da para comentar todos os tipos, mas te garanto que essa foi uma boa estratégia para driblar o tempo nos dias que você não aparecia e eu não ficava pensando em como eu ia ser feliz no dia em que me declararia a ti e ai noivaremos, casaremos, viajaremos para Paris em nossa Lua de mel e a vida será fácil e gostosa como a novela das oito (que passa as nove.).
Faz seis dias que não te vejo, a brincadeira de pensar que as pessoas são focas, rinocerontes, hienas (a senhora do peido, que só faz merda mas ri o tempo todo era a minha predileta), cobras, gatos, poodle, cockers e outros animais perdeu a graça e na novela o autor acho que ficou louco e sumiu com a mocinha vê se pode?
A minha vida definitivamente estava uma merda.
E de você nem noticia, até arrisquei perguntar de ti para minha única amiga do prédio a Neide da limpeza, mas ela falou que nem faz idéia de quem você seja.
Descascando as unhas do esmalte roxo que por um lapso de consciência usei na noite passada que por sinal eu quero esquecer, aconteceu algo de realmente surpreendente na geladeira atômica, agora eles iam completar a nave com uma dessas telas de plasmas que anunciam produtos e noticias para os usuários não perceberem o quanto é tedioso e desgastante o tempo de viagem e de espera na gélida nave. Eu até que gostei da idéia, pois entretidas as pessoas não iam ter mais comentários irritantes, e eu ia cancelar a assinatura do jornal assim sobra um dinheirinho no final do mês e o tempo que eu passava lendo aquele desfile de desgraças pela manhã ia me deixar um pouco mais relaxada para pegar o serviço. O que eu não sabia é que a desgraça ia vir eletrônica através dessa maldita televisão, dia desses tentei trocar de canal pra ver se não tinha outra coisa passando, depois disso sou motivo de chacota na portaria, o Manuel não pode me ver que ri a toa. E eu ia saber que aquilo era programado?
Dia desse você apareceu assim de repente e eu desarmada, sozinha com você na nave não pensei duas vezes e de impulso me joguei na sua boca, logo a nave para no sétimo andar você esfregou a manga da sua blusa na boca, eu não entendo nada, quando olho pra trás o gordo filho da mãe ta parado com a cara indignada e solta:
─Luis!È assim que você me ama!?
Escrito por david cejkinski às 13h18
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Rotina.
Condicionalmente em parte da cidade e em partes de min, valseia uma dança lânguida de corpo sexodoído e realizado na minha marcha límpida de dias, horas, noites metódicas, tardes e mínimas lanças cortam a alma urbana;e danço feito uma criança histérica jogado aos teus olhos perfeitos, mau amados, desconexos e musicais, vou de trompetista sobre teus lentos argumentos sob sua alma imoral, mancho de café o sorriso do teu dia mórbido ─ a paz irradia a morte que te faz mais vivo que te faz mais lento que te faz mais podre no resto dos teus jogos egípcios e em suas costas macias onde gozo todos os dias; feito de lodo e mole vou de encontro a uma mesa de bar que todas as quintas me faz voltar- páprica a sua pele, manchada a sua roupa, ouves dizer o que dizem de tuas modas? ouve?não suporto mais te gritarem neuroses, já lhe disse as ruas são desertas e os bueiros tem ouvidos, pode crê─confia em min─ diz que sim; pálido a pequenina voz tranqüila das duas horas da tarde me faz querer uma vez mais um jogo de palavras que vai terminar na cama, na lama, nos teus nervos transmissores de prazer, eu quero morrer no tédio do teu corpo pois já emancipei Sade e Hilda Hilst não faz milagre na mórbida presença do meu rio que escorre em águas límpidas e cai na cachoeira da mentira, tomo um banho e limpo com espuma todo o meu corpo; você sabe que eu queria um dia pra te fazer mais feliz?sabia que todo dia o mecanismo engloba as nuances da minha rotina?e te faz menina, que te arranca à poesia pérfida dos teus quadris; emaranhado de pó à noite me faz dar dó da maquina presença de meninos e lobos em tuas palavras reles e mortas, onde já não diz nada que te encare a cara torta na matemática sublime do asfalto ofuscante de historias, um menino corre sob os teus pés, o menino joga com seus desejos, um menino que corre no asfalto com garra de homem me pergunta: onde, quando e como se morre, a maquina te deleta a sorte; pequeno me diluo diante os faróis e varro a cidade contida de onde olho uma vista medonha: pequenas-luzes-humanas; a respiração é curta a historia é longa, mas sempre a mesma besteira desfila em suas linhas, vadias, de prosa e poesia; mas não se esqueça que nunca seremos completamente completos.
nunca se esqueça que nunca seremos completamente meninos.
David Cejkinski
Escrito por david cejkinski às 13h14
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Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 15 a 19 anos, Portuguese, Arte e cultura, Cinema e vídeo MSN - davidcejkinski@hotmail.com
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