“A emoção é uma certa maneira de entender o mundo”.Jean-Paul Sartre.

 

Trechos do livro Esboço para uma teoria das emoções de Jean-Paul Sartre:

 

“(...) Mas uma operação sobre o universo se executa, na maioria das vezes, sem que o sujeito abandone o plano irrefletido. Por exemplo, neste momento escrevo, mas não tenho consciência de escrever. Dirão que o habito tornou-me inconsciente os movimentos que faz minha mão ao traçar as letras. Isto seria absurdo. Talvez eu tenha o habito de escrever mas não de escrever tais palavras em tal ordem. De uma maneira geral, convém desconfiar das explicações pelo habito. Em realidade, o ato de escrever não é de modo algum inconsciente, é uma estrutura atual de minha consciência. Só que ele não é consciente de si mesmo. Escrever é tomar consciência ativa das palavras enquanto elas surgem na minha pena. Não das palavras enquanto são escritas por mim: apreendo intuitivamente as palavras enquanto tem essa qualidade de estrutura de surgirem ex nihilo e, não obstante, de não serem criadoras por si mesmas, de serem passivamente criadas. No momento em que traço uma delas, não presto atenção. Isoladamente em cada uma das pernas de letras que minha mão forma: estou num estado especial de espera, a espera criadora, espero que a palavra ─ que sei de antemão- sirva-se da mão que escreve e das pernas de letras que ela traça para se realizar (...).”“.

“(...) Em segundo lugar, as palavras que meu vizinho escreve nada exigem, contemplo-as em sua ordem de aparecimento sucessivo, assim como olho uma mesa ou um cabide. Ao contrario, as palavras que escrevo são exigências. È o modo mesmo como as percebo através de minha criatividade criadora que as constitui como tais: elas aparecem como potencialidades que devem ser realizadas. Não que devam ser realizadas por mim. O eu não aparece de modo algum aqui. Sinto simplesmente a tração que elas exercem. Sinto objetivamente a exigências delas. Vejo-as realizar-se ainda mais. E posso perfeitamente pensar as palavras que meu vizinho traça como exigindo dele a sua realização: não sinto essa exigência. Ao contrario, a exigência das palavras que traço é diretamente presente, sentida e pesada. Elas puxam e conduzem a minha mão. Mas não há maneira de pequenos demônios espertos e ativos que a empurrariam e a puxariam: ela tem uma exigência passiva. Quanto a minha mão, tenho consciência dela no sentido. De que a vivo diretamente como o instrumento pelo qual as palavras se realizam (...).”“.

 

 

“(...) Agora podemos conceber o que é uma emoção. È uma transformação do mundo. Quando os caminhos traçados se tornam muito difíceis ou quando não quando não vemos caminho algum, não podemos permanecer mais num mundo tão urgente e tão difícil. Todos os caminhos estão barrados, no entanto é preciso agir. Então tentemos mudar o mundo, isto é, vivê-lo como se as relações das coisas com suas potencialidades não estivessem reguladas por processos deterministas, mas pela magia. Estendamos bem que não se trata de um jogo: estamos acuados e nos lançamos nessa nova atitude com toda a força de que dispomos. Entendamos também que esta tentativa não é consciente enquanto tal, pois não seria o objeto de uma reflexão (...)”.

 

“(...) Para compreender bem o processo emocional a partir da consciência, convêm lembrar o caráter duplo do corpo, que é por um lado um objeto no mundo e, por outro, a experiência vivida e imediata da consciência. Assim podemos compreender o essencial: a emoção é um fenômeno de crença. A consciência não se limita a projetar significações afetivas no mundo que a cerca: ela vive o mundo novo que acaba de constituir. Vive-o diretamente, interessa-se por ele, admite a qualidade que as condutas esboçaram. Isto significa que, quando todos os caminhos estão barrados, a consciência precipita-se no mundo mágico da emoção, precipita-se por inteiro, degradando-se; ela é a nova consciência diante do mundo novo, e é o com o mais intimo nela que ela o constitui, com essa presença a si mesma, sem distância, de seu ponto de vista sobre o mundo. A consciência que se emociona assemelha-se muito a consciência que adormece. Esta, com aquela lança-se num mundo novo e transforma o seu corpo ou, se preferirem, o corpo─ enquanto ponto de vista sobre o universo imediatamente inerente à consciência-─Poe-se no nível das condutas(...).”“.

 

“(...) Assim a origem da emoção é uma degradação espontânea e vivida da consciência diante do mundo (...)”.

 



Escrito por david cejkinski às 13h17
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